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quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Semi Deuses

Notas do Autor:
Demorou, mas veio!!

Odisséia
Kaline Bogard

Capítulo III
Semi Deuses

Ele dizia que sua mãe estava viva! Sua mãe!  E que podiam encontrá-la!  A emoção foi tão grande que não conseguiu dizer nada.  Porém o brilho das íris castanhas deixava claro que Jin estava mais do que disposto a ouvir cada palavra que os quatro iriam lhe dizer.

- - - - - - - - -

– E então?  – Takeo pressionou.

– Minha mãe? – Ikeuchi sussurrou – Como... posso ter certeza?

Não quis se deixar seduzir pela idéia, apesar de ter sentido forte emoção.  Ainda eram quatro desconhecidos.  E havia aquela sensação horrível de ressaca que não ajudava a raciocinar direito...

– É melhor tomar o analgésico. – Teruo afirmou simpático, ganhando um olhar desconfiado.

– Sabia que somos primos? – Arata estendeu o remédio mais uma vez.

– Primos? – Jin perguntou de sobrancelhas franzidas.

– Hai.  A mulher que me criou é irmã da sua mãe.  Não temos o mesmo sangue, mas considero laços fortes.

O otaku apenas balançou a cabeça.  Acabou dando-se por vencido e aceitando o comprimido.

– Você vai ouvir a nossa história? – novamente  Arata se pronunciou.

– Mas e Jure chan...?  Ela está bem...?

– Está. – Jack respondeu de mau modo, subitamente irritado. – Teruo a levou pra casa em segurança.

E apontou com a cabeça em direção ao moreno que apenas sorriu misterioso, fato que enervou ainda mais o aparente líder do grupo. – Não tenta penetrar na minha mente, Terushido.

– É como pedir pro cachorro não roer um osso. – Takeu debochou – Galera, a gente não tem muito tempo, lembram?  Ou querem que grudem nos nossos calcanhares outra vez?

Os quatro se entreolharam e concordaram silenciosamente.  Arata sentou-se na cama do primo recém descoberto e pensou por alguns instantes, sendo observado pelos companheiros.  Era evidente que o rapaz devia ser o porta-voz.  Talvez pela calma que seu semblante transmitia:

– Primo... – falou numa forma de evocar intimidade – Você já ouviu falar de Mitologia Grega?

Ikeuchi sorriu:

– Claro.  Sou fã de Saint Seiya!

Takeo rolou os olhos e Teruo sorriu de lado.  Mas foi Jack quem suspirou fundo antes de falar:

– Não é sobre o anime.

– Eu sei. – Jin afirmou – Gostei tanto do anime que fui procurar mais informações por conta própria.  O Kurumada bagunçou algumas coisas, confundiu outras.  Mas eu conheço.

Mais aliviado, Jack relaxou e recostou-se na cadeira.  Arata prosseguiu:

– A verdade, Jin, é que não se trata apenas de mitologia.  É realidade pura, os deuses olímpicos, as ninfas, as musas e deidades.  Todos os imortais citados nos escritos antigos e cantados nas homenagens épicas existem de verdade.

Silenciou-se esperando suas palavras surtirem efeito, brincando com a mecha ruiva do cabelo.  Qual seria a reação?  Ikeuchi acreditaria ou riria na cara deles?

Porém Shibuya ficou quieto, parecendo aguardar a continuação.

– Onde a gente se encaixa nisso? – Teruo soou pensativo – Bom tocar nesse ponto...

Jin olhou o moreno e balançou a cabeça:

– Como você faz isso? – perguntou impressionado – Parece que você lê meus pensamentos.

– E lê. – Takeo respondeu – Teruo, assim como Jack, Arata e eu, é filho de um imortal.  Um dos deuses gregos.

– E possui um tipo de poder?  De ler a mente das pessoas? – Ikeuchi murmurou.

Os quatro se entreolharam.  Não era bem a reação esperada.  Terushido deu de ombros:

– É chato, mas o que se vai fazer?

– Vocês todos são semi-deuses? – Jin pareceu impressionado – Filhos de quem?

Takeo riu antes de responder:

– Teruo é filho de Eros.  Arata é filho de Afrodite, ele foi adotado por uma vassala humana.  Eu sou filho de Dionísio e Jack é o filho de Hefesto.

– Oh! – Shibuya exclamou observando um a um dos garotos.  Não era difícil pra ele aceitar e acreditar naquilo.  Sendo otaku, na verdade, era quase como a realização de um sonho, aquele desejo oculto que todos levam de viver uma grande aventura.

Claro que, como qualquer rapaz normal, sonhara encontrar uma andróide super linda e fofa abandonada no lixo, ou uma deusa saindo da sua televisão e jurando devoção eterna.  Tá certo que aqueles quatro passavam longe de seu protótipo ideal, mas...

– Se vocês são semi deuses, quer dizer que eu sou filho de um deus também? –perguntou empolgadíssimo apontando para si mesmo.

Takeo gargalhou.  Arata e Teruo sorriram largo.  Mesmo Jack pareceu menos tenso:

– Não. – o moreno baixinho respondeu – Com certeza você não é filho de um deus.

– Ah... – decepcionado, Jin murchou na cama.  Seria tão legal se seu pai fosse Zeus ou Hades disfarçado, morando entre os mortais.

– Vamos explicar tudo. – Teruo ficou penalizado pela decepção obvia do otaku.

– Tivemos trabalho para encontrar você.  Não podemos perdê-lo de vista. – Arata revelou.

– Seu pai, – o ruivo brincalhão estava sério ao começar a falar – conhece Mitologia Grega desde que nasceu.  Ele planejava encerrar a descendência.  O seu nascimento, Ikeuchi, não estava planejado.

– Foi um choque.  Não duvido nada que ele tenha proposto aborto, na pior das hipóteses. – Teruo completou. – Não tive tempo de ler a mente dele.  Entreguei Jure e sai de lá o quanto antes. – não entrou em detalhes sobre como tinha deixado a garota deitada na calçada.  Acabaria preocupando Shibuya.

– Ele tinha idéias tão firmes a respeito da lenda, que assustou Aya san.  Sua mãe fugiu e te levou junto, mas Ikeuchi san conseguiu pegá-lo de volta. – Arata pareceu pensativo.

– Não falem de mim como se eu fosse uma coisa! – Jin reclamou com um bico. – Não é pra ficar me levando de um lado para o outro.

– Gomen. – o moreninho de mecha ruiva sorriu suave.

– Qual é o problema comigo?  Eu nem sou semi deus... não tenho poderes... não conheço nenhum tesouro escondido...

– Tem a ver com a lenda. – Teruo revelou.

– A lenda? – Jin ficou confuso. – Existem tantas!

– A lenda de Pandora. – Jack afirmou grave. – Conhece?

– Hn. – Jin respondeu.

– Dissemos que você não é filho de um deus... – Takeo foi falando – Mas tampouco é humano.

– Não sabemos como classificá-lo. – Arata pareceu desanimado.

– Porque? – o otaku estava se amuando por não entender as frases enigmáticas.

– Porque Pandora não é humana.  Ela foi “algo” forjado pelo meu pai. Recebeu o sopro de vida e um presente significativo de cada um dos deuses. – Jack explicou.  Foi a frase mais longa que Ikeuchi lembrava de ter ouvido do líder.

– Ela ainda está viva? – Jin perguntou curioso.

A resposta veio dos lábios de Arata:

– Não sabemos.  Sabemos apenas que, apesar de não ser humana, Pandora era uma “mulher” no sentido total da palavra.  Ela gerou filhos e deixou o seu legado como herança.

– E o que tudo isso tem a ver comigo? – Jin ainda não compreendia a ligação mais importante de todos aqueles fatos.

– Herança que foi herdada por você, Shibuya.  – Takeo respondeu de forma direta – Seu pai é descendente de Pandora.  E passou esse fardo pra você.

– Mas... Pandora... – Jin ficou surpreso.

– Sim.  Pandora. – Arata ajeitou a mecha ruiva antes de começar – A mulher que foi forjada por Hefesto e Afrodite.  Um ser que não é “mortal” e tão pouco “imortal”.

– Que vantagem isso tem? – Jin deu de ombros – Me torna diferente do que eu sou?  Mais forte ou esperto?

– Não.  Nem uma coisa nem outra. – Jack cortou os rodeios – Mas Pandora tinha uma caixa.  Uma caixa que continha todos os males do mundo.  E estava selada.

– Eu sei. – o otaku fitou o moreno nos olhos – Mas Pandora abriu a caixa.  Ela libertou tudo o que tinha lá dentro.  Menos a esperança...

– Exato. – Arata balançou a cabeça.

– A caixa ainda existe, Shibuya. – Jack retomou a palavra – Mas nenhum de nós pode abri-la.  Seja humano ou imortal.  Existe um selo.  Um lacre, se preferir.  Que pode ser aberto apenas por Pandora...

– Ou um de seus descendentes... – Takeo completou.

– E é aí que você entra. – Arata exibiu um sorriso suave, tinha na face a expressão sonhadora de quem visualiza um objetivo próximo de ser alcançado – Vamos encontrar a Caixa de Pandora.

– E quando a encontrarmos... – a voz de Jack soou grave e decidida – Queremos que você a abra para nós...

 

Continua...

Notas Finais:

Cumprindo o combinado com meu Muffinzinho de chocolate coisinhamaisfofadekalinecheirareapertareafofar...
Man, to empolgada com esse lance de mitologia grega, mas nem pesquisei nada ainda. Então, qualquer gafe, perdoem!

A proposta

Notas do Autor:
desculpa a demora!!

Odisséia
Kaline Bogard

Capítulo II
A proposta

– Jure chan!! – Jin largou o sorvete e apressou-se para socorrer a amiga – O Que foi?

Sacudiu o corpo da garota de leve, sem obter resposta.

– Queremos que venha com a gente. – Ikeuchi levantou a cabeça e encarou o rapaz de cabelos escuros com uma mexa ruiva, o do sorriso bonito – Precisamos conversar com você.

Balançando a cabeça, Jin respondeu:

– Ie.  Tenho que ajudar Jure chan.

Arata ficou desconcertado.  E não foi o único.  Sentiu o peso do olhar dos companheiros sobre si, também os três surpresos pela recusa.  Ninguém dizia “não” ao filho de Afrodite.  Sobretudo quando o rapaz sorria daquela forma.

– Ie...? – repetiu baixinho, levemente chocado.  Era a primeira vez que seus poderes de hipnose falhavam com um humano.

– Jure... – Jin voltou a chamar, pegando-a nos braços e ignorando os desconhecidos.

– Eto... – um dos rapazes, o de cabelos ruivos e olhar cinzento esperto, foi logo se adiantando e falando: –  Sua amiga parece ter passado mal pelo... tempo.  Esse clima é um horror.

O mais alto hesitou.  Olhou de Jure para o ruivo:

– Você acha...? – nem passou pela cabeça de Ikeuchi desconfiar daqueles quatro.

– Tive uma idéia. – o ruivo continuou lançando um olhar cheio de significado para os companheiros – Talvez ela melhore se tomar água fresca.  Espere aqui que eu vou buscar.

– Aa! Arigatou. – E enquanto Takeo se afastava com o outro moreno alto, Jin colocou Jure com cuidado sobre o banco – Jure chan... não morra!

Arata e Jack, que haviam ficado, se entreolharam:

– Ela não vai morrer. – o rapaz da mexa garantiu – Alias, meu nome é Arata.  Esse é Jack.

– Ikeuchi Jin. – se apresentou sem desviar os olhos da face pálida da menina.  Começou a se sentir malditamente culpado.  Se não tivesse insistido tanto para saírem...

– Aqui está! – o ruivo e seu colega voltaram com duas garrafinhas na mão – Tem uma máquina aqui perto.

Então abaixou-se e rompeu o lacre da garrafa antes de ajudar Ikeuchi a fazer a garota beber direto do gargalo.

– Arigatou.

– Trouxe pra você também. – estendeu a outra garrafinha.

– Eu me sinto bem. – Jin assegurou, mais preocupado com Jure do que consigo mesmo.

– Hum. – o ruivo insistiu – Mas vocês parecem turistas.  Não sabia que o ar de Nagasaki ainda tem partículas da bomba atômica?  Os médicos recomendam que os moradores tomem muita água pra purificar o sangue.

Jack e Arata  tiveram que se segurar pra não praguejar diante da afirmativa.  Takeo, como era o nome do companheiro ruivo, não podia ter arranjado uma conversinha mais furada!  Ninguém ia engolir aquilo!

Mas para surpresa de ambos, Ikeuchi ficou pálido enquanto franzia as sobrancelhas:

– Sério?! – não lembrava de seu pai ter comentado algo a respeito, mas talvez nem ele soubesse!  Imediatamente tratou de fazer Jure beber mais água. – Oh, não. Jure chan vai virar uma mutação!

Takeo engoliu a risada.  Sentou-se no banco ao lado de Jure e estendeu a garrafinha para Jin que estava ajoelhado a frente da moça:

– Calma!  São níveis baixos de radiação.  Beba muita água e ficará bem.  Nós quatro sempre nos garantimos.

– Arigatou. – aceitou a oferta com um sorriso. Enquanto quebrava o lacre acrescentou: – Espero que Jure chan se recupere.  Se bem que... se a gente conseguisse uns poderes mutantes ia ser bem legal...

E deu um longo gole da água.  Jack e Arata enviaram um olhar significativo para Takeo.  Evidentemente sabiam que não era um líquido inocente.  Não vindo das mãos do ruivo mais sacana do grupo.

As suspeitas se confirmaram quando foi a vez de Ikeuchi apagar, caindo de costas no chão.

– “Radiação no ar”...? – Jack resmungou enfiando as mãos no bolso.

– Deu certo, não deu? – Takeo sacudiu o ombro, num sinal de pouco caso. – Funciona com otakus.

– Hn...– o líder do grupo olhou para os dois desacordados.  Tirou um cigarro do maço e voltou-se para o moreno mais alto dos quatro: – Teruo, livre-se  dessa mestiça.  Nós vamos voltar para o esconderijo.

– Hai, hai. – o moreno concordou com um aceno de cabeça.

– Mas é bom passar por uma farmácia antes. – Takeo soltou como quem não quer nada.

– Por quê? – Arata virou-se para o ruivo.

– Vinho super-hiper-mega concentrado. – apontou a garrafinha – É tiro e queda, mas dá uma dor de cabeça...

– Vinho? – novamente Arata perguntou, fazendo Takeo sorrir largo.

– Transformar água em vinho, nunca ouviu falar?  É um truquezinho bem popular em festas de casamento. – riu da pilhéria.

Jack logo compreendeu a lógica do pensamento do outro.  Se os poderes haviam falhado de forma direta, porque não tentar usá-los de forma indireta?  Graças à presença de espírito do ruivo estavam um passo mais próximos de seu objetivo.

oOo

Ikeuchi arregalou os olhos castanhos e sentou-se muito ereto na cama.  Apenas para voltar a fechá-los com força e deixar-se cair sobre o colchão.  A cabeça doía.  Muito.  E sentia-se enjoado.

– Ohayou. – ouviu alguém cumprimentá-lo.

– Ohayou. – respondeu baixo.  Ruminou por um segundo percebendo que não conhecia aquela voz.  Muito cuidadosamente abriu um dos olhos e fitou o rapaz sentado do outro lado daquele quarto desconhecido.  Era o rapaz que se apresentara como Arata.

– Tudo bem...?

– Minha cabeça... dói... – Jin sentiu um arrepio subir por suas costas.  E se aquela dor fosse causada pela radiação?  E se seus braços começassem a virar tentáculos?  E se...

– Relaxa. – outra voz desconhecida se fez ouvir – Você não vai virar um polvo.

Ikeuchi olhou naquela direção.  Era o moreno alto cujo nome não sabia.  Movendo-se muito devagar e cuidadosamente, o otaku sentou-se na cama.  Viu-se com os mesmos quatro da tarde anterior, espalhados pelo cômodo pequeno:

– Quem são... vocês...?  Jure chan...?

Arata levantou-se e estendeu um copo com água e um comprimido.  Sua oferta foi recusada com desconfiança, fato que o fez sorrir de forma natural, diferente de quando queria dominar a mente de alguém:

– É aspirina.  Pra sua cabeça.

Ainda assim o outro não aceitou:

– Preciso ir. – nem imaginava quanto tempo se passara.  Seu pai devia estar preocupado, assim como Fy e Jure chan.

– Espere. – foi Jack quem disse.

– Temos uma proposta pra te fazer, Ikeuchi. – o ruivo sorriu misterioso.

– O nome “Ikeuchi Aya” te diz alguma coisa? – Arata perguntou.

Muito pálido, Jin respondeu:

– É o nome da minha mãe...

– Nós podemos te ajudar a encontrá-la.

O otaku balançou a cabeça devagar:

– Minha mãe... morreu quando... eu era criança. – ficou meio chateado pelo que achou ser uma brincadeira de mau gosto.

– Ela não morreu. – Jack afirmou com muita certeza – Aya está viva.  Ela procura por você.

– E se Shibuya nos ajudar a encontrar algo importante para nós, vamos ajudar a encontrar sua mãe, em retribuição. – o ruivo cruzou as mãos atrás da cabeça.

– Sou Jack.  Aqueles são Arata, Takeo e Teruo.  Sabemos tudo sobre você, seu pai, Fy, Jure e Ikeuchi Aya.  Está disposto a conhecer nossa história e ouvir nossa proposta?

Jin encarou os profundos e misteriosos olhos, atraído pela força e determinação que emanavam daquele garoto.  Um garoto que não podia ter mais do que dezesseis anos, e já dono de uma gritante maturidade que não condizia com a juventude.

Ele dizia que sua mãe estava viva! Sua mãe!  E que podiam encontrá-la!  A emoção foi tão grande que não conseguiu dizer nada.  Porém o brilho das íris castanhas deixava claro que Jin estava mais do que disposto a ouvir cada palavra que os quatro iriam lhe dizer.

 

Continua...

Notas Finais:
Nii chan, o próximo capítulo só depois que você atualizar AQUELA fic.

O encontro

Notas do Autor:
demorou mas veio!

Odisséia
Kaline Bogard

Capítulo I
O Encontro

– Na.Ga.Sa.Ki... – o rapaz pronunciou as silabas lentamente, revelando como estava entediado. Pensava em Tokyo, de onde haviam saído recentemente.

Jin observava a paisagem através da janela.  Não que a cidade fosse de todo ruim.  Pelo contrário.  Era mais tranqüila do que pensara a princípio. E as pessoas eram bem acolhedoras.  Porém, ainda assim, não era Tokyo.

O rapaz estava acostumado a viajar para todos os cantos do Japão, porque o trabalho de seu pai exigia isso.  E numa dessas andanças acabaram parando em Tokyo.  Finalmente Ikeuchi pudera conhecer Akihabara, lugar que só vira de fotos e da televisão.

Agora que haviam se mudado, seis meses depois de chegarem, Shibuya, como era apelidado, sentia falta do paraíso otaku.

– Ne... Jure-chan...? – voltou-se para dentro da sala, e fitou a garota que digitava freneticamente em um laptop.

– Hn? – nem desviou os olhos da tela do portátil.

– Vamos dar uma volta.

– Não.  A gente acabou de chegar aqui... – respondeu com uma voz meio insegura. – Não conhecemos nada direito...

– Mas é uma boa forma de conhecer. – Jin insistiu.

– Shibuya kun... está anoitecendo... não é bom andar por aí sem... Ikeuchi san ou Fy san...

Jure levantou os olhos e fitou o rapaz.  Ambos eram criados como irmãos pelo senhor Ikeuchi, assim como Fy, que parecia não ter família.  Shibuya gostava dos dois, tanto de Jure com seu jeito introspectivo e mania de esconder-se atrás de pilhas e pilhas de roupas; quanto de Fy com seu jeito expansivo e pavio curto.

Desde que podia se lembrar estavam juntos. Viajavam juntos, passando de uma cidade a outra, tendo apenas os três como amigos.  Amigos e irmãos, apesar da ausência de laços sangüíneos.

Jin passou as mãos pelo cabelo de franja despontada e ficou em pé:

– Não tem problema.  Eu vou sozinho.

No mesmo instante Jure fechou o laptop:

– Não.  Vou com você.

–... tem certeza?

A garota apenas balançou a cabeça, agitando os cabelos despenteados, com alguns nós:

– Hn.  Vou com você.  Se Shibuya kun se perder será um problema.

Imediatamente Jin fez um bico:

– Não vou me perder. – enfiou as mãos no bolso e deu de ombros – Espera eu pegar a mochila.

Jure observou o rapaz sair da sala e respirou fundo.  Que maravilha.  Logo agora que os dois estavam sozinhos... enfim, quais as chances de algo dar errado?  Haviam acabado de chegar a Nagasaki.  Ikeuchi san dizia que além de possuir um fluxo intenso de energia desregulada, a cidade estava instável.  Os efeitos da bomba atômica não haviam sido eliminados por completo.  Por isso ele demorara mais em Hiroshima e pretendia passar pelo menos um ano em Nagasaki.

Com um suspiro guardou o laptop depois de desligá-lo.  Pegou o celular, o único meio de comunicação que tinha autorização de usar, e guardou no bolso.  Por fim recolheu sua preciosa flauta e guardou dentro da bolsa estilo carteiro.  Estava pronta.  Não pensou em trocar de roupa.  Sentia-se a vontade com a blusa de frio dois números maior, a calça de moletom e o gorro frouxo sobre os cabelos despenteados.

– Pronto!! – Jin surgiu animado.  Nas costas levava a mochila pesada de chaveiros.  Vestia a bermuda do exército (sua preferida), a blusa vermelho sangue cheia de botons do lado direito e uma gravata preta com risquinhos brancos. – Vamos...?

A guria tentou parecer animada:

– Hn. Pegou o celular?

– Tá aqui. – respondeu com um sorriso.

Jure ainda respirou fundo antes de acenar com a cabeça:

– Vamos.  Mas temos que voltar antes das oito, está bem?

– Hai.

Nem Jin gostava de andar durante a noite em um lugar que não conhecia direito.  Saíram juntos para o ar fresco de fim de tarde.  O movimento naquele bairro não era intenso.  Poucas pessoas transitavam, voltando para suas casas depois de uma jornada intensa de trabalho.  Pessoas desconhecidas, como sempre.

–Será que papai vai ficar muito tempo aqui? – Jin perguntou cruzando os dedos atrás da cabeça.

Jure sabia como essa vida de mudanças podia ser desgastante.  Sem nunca estabelecer laços, sem nunca se apegar a nada por tempo demais.  Mudando e mudando tão rapidamente que era impossível apegar-se a qualquer coisa ou a alguém.

É por uma boa causa, Shibuya kun.”, a garota pensou.  Queria dizer muitas coisas a ele, mas não podia.  A ignorância sempre seria a maior proteção.  Era melhor viver daquela forma, desconhecendo fatos vitais, mas sem temer o futuro e agir como Ikeuchi san, Fy e ela própria: temendo cada dia seguinte, com medo da sombra que os espreitava estar próxima, pronta para saltar sobre eles e...

– Jure chan, que tal um sorvete? – a pergunta tirou a moça de seus pensamentos.  Shibuya apontava um vendedor ambulante que empurrava um carrinho pela rua.

– Seria... bom...

Compraram os sorvetes e voltaram a andar.

– Vou ver se papai me deixa ter aulas de contra-baixo.  Eu acho que já aprendi tudo o que podia sozinho. Mas preciso de ajuda para evoluir.

– Talvez... – Jure sentiu muito ter que mentir.  Ikeuchi san nunca autorizaria que algum desconhecido se aproximasse.  Jin não sabia.  Tinha muita coisa em jogo ali.  Não apenas a vida e o futuro do garoto.  Mas o futuro e a vida de todas as pessoas da face da Terra.

– Vamos sentar ali.

– Shibuya kun, acho que já fomos longe o bastante... será... complicado retornar depois...

– Então a gente senta, termina os sorvetes e volta para casa.  Combinado?

O sorriso que ele deu a garota foi tão espontâneo e animado, que acabou derrubando as barreiras da otaku.  Ela concordou com um aceno de cabeça e seguiu silenciosamente rumo a pequena praça, vazia aquela hora.

– Vou começar a procurar um emprego. – Jin afirmou entre uma colherada e outra – Já tenho dezoito anos...

– Espere a maioridade, Shibuya kun. – Jure evitou olhar para o rapaz.  Franziu as sobrancelhas e moveu-se ligeiramente incomodada com algo – Faltam... três anos...

– Falta muito tempo. – Jin reclamou.  A cada dia a idéia de se estabelecer ficava mais firme em sua mente.  Enquanto morasse com o pai teria que segui-lo e mudar-se constantemente.  Mas se começasse a trabalhar e a se manter...

Então o rapaz piscou surpreso quando viu Jure derrubar o sorvete e abrir a bolsa rapidamente, pegando a flauta de dentro dela.

– Jure chan...?

A otaku não respondeu.  Começou a tocar o instrumento, fazendo as bochechas inflarem de leve.  A música agradável soou na praça, dando um inegável clima de outono, apesar de estarem no verão.

Foi uma sensação tão boa que Jin quase fechou os olhos.  O rapaz não fez apenas porque ouviram o som de uma risada.  Sombras se projetaram a direita, por onde quatro rapazes se aproximavam. O mais baixo tinha as mãos no bolso e ainda ria alto:

– Acredita nisso, Arata? – a expressão parecia ainda mais ameaçadora somada ao riso irônico.

– É, Jack... – o outro moreno, de mecha ruiva deu de ombros – Uma ninfa mestiça achando que pode usar sua magia contra nós.

– E ela pode...? – o tal de Jack olhou o companheiro.

Ao invés de responder, o rapaz chamado Arata apenas sorriu largo, curvando os lábios lentamente.  Foi um sorriso encantador que fez Jin piscar fascinado.  Nunca vira alguém tão bonito antes! Ficou tão impressionado que só se deu conta do que acontecia quando ouviu um baque surdo e percebeu que Jure tombara inconsciente no chão.

 

Continua...

Notas Finais:
Foi mal os erros!  Não betei nem revisei!

Prólogo

Odisséia
Kaline Bogard
Prólogo

Olhou pra cima vendo o céu cinzento de Tokyo. Odiava a cidade. Odiava a multidão de pessoas e o corre-corre cotidiano que prendia cada uma delas. Homens e mulheres que se esbarravam, iam e vinham sem deixar marcas profundas, ou levar marcas profundas.

Mas era esse anonimato que Aya buscava. Justamente a segurança e proteção de ser mais uma entre milhares, sem nada especial que a distinguisse dos outros.

Apertou a mãozinha do filho com carinho, tratando de andar mais devagar para que as pernas pequenas pudessem acompanhar o ritmo. O garoto, ao contrário da mãe, estava fascinado pela paisagem. Acostumara-se a viajar por vários locais: Osaka, Okinawa, Kyoto, Hokkaido... e nenhum deles era tão brilhante e cheio de vida quanto Tokyo.

– Mamãe!

Aya parou de andar e olhou para o filho:

– O que foi, Jin chan?

– Ali! – apontou o vendedor de algodão-doce, deixando o pedido praticamente explicito.

A jovem mulher sorriu e caminhou até o desconhecido:

– De que cor você quer?

Os olhinhos infantis analisaram a variedade de algodões coloridos com uma seriedade que não combinava com a pouca idade.

– Branco! Parece nuvens!

– Ótima escolha.

Depois de comprar o doce foram se sentar em um dos bancos do parque. O movimento era grande, apesar de ser muito cedo. Aya observou o garotinho sentado ao seu lado, gordinho de tantas blusas de frio, com o gorro colorido. Jin se divertia vendo o algodão-doce grudar na luva azul de dedos vermelhos. O doce parecia enorme nas mãos da criança de três anos.

Vendo a cena Aya sentia o coração pesar de tanto amor. Jurou que nunca desistiria de fugir, enquanto seu ex-marido fosse obcecado com aquele assunto, enquanto tivesse aquelas idéias absurdas sobre mitologia. E uma mitologia que nem japonesa era.

Agora estavam em Tokyo, na segurança de uma cidade grande. Seria quase impossível que os encontrassem por ali.

Recostou-se melhor no banco. Os olhos indo intermitentes do filho para as pessoas que circulavam apressadas, indiferentes aos dois sentados no banco, entregues ao frio de uma manhã de final de outono.

“Amanhã começo a procurar um emprego...”. Aya pensou. “Algo que nos sustente, mas não me deixe muito longe de Jin. Algo que...”

Os pensamentos se perderam. Uma suave melodia soou em sua mente. Notas tranqüilas e harmônicas que falavam de um futuro sem medo, sem dor ou insegurança. Um futuro em que ela não precisava mais fugir e que seu filhinho estaria a salvo do pai.

Uma música cheia de promessas tentadoras, que oferecia justamente o que a jovem fugitiva procurava. Sem que percebesse Aya foi se envolvendo, se deixando levar. Fechou os olhos por um segundo, visualizando aquele futuro onírico.

Voltou a abri-los no minuto seguinte, retornando lentamente a realidade, onde nada era bonito, nada era certo e, definitivamente, nada era seguro. Esfregou o rosto gelado e virou-se para chamar o filho. Precisavam voltar para casa depois daquele breve reconhecimento das redondezas.

Levou um susto tão grande que não conseguiu expressar em voz alta. A criança sumira. Não estava mais ao seu lado no banco. Tudo o que restara de Jin fora o algodão-doce caído no chão frio, derretendo lentamente.

Quinze anos depois

O rapaz não fazia esforço algum. Eram todos tão patéticos que mereciam que lhe pisassem em cima. Apesar disso sorriu novamente, curvando os lábios de forma sensual.

E o homem a sua frente prendeu a respiração, completamente fora de si ao observar aquela criatura quase etérea. Tão linda que só podia ser filho de um deus.

– Arata... – alguém chamou em voz grave, estragando o clima da cena. O rapaz olhou pra cima, analisando o moreno recém-chegado ao Pub.

– Jack. Bem vindo.

– Vamos embora.

Arata riu e deu de ombros. Saiu do balcão sem agradecer ao homem que lhe pagara a bebida e permanecia olhando para ele como se fosse um anjo descido dos céus. Arata não ia negar: adorava ser olhado daquela forma, adorava reconhecer a fascinação brilhando os olhos de seus admiradores.

– De mau humor, Jack?

O moreno mais baixo olhou para seu companheiro. Arata também era moreno, mas tinha uma mexa ruiva nos fios, detalhe que dava um charme ainda maior para as feições magníficas. Desconcertado, Jack balançou a cabeça e resmungou:

– Não use isso contra mim, Arata.

– Sinto muito. É força do habito.

– Está no sangue, não é? Filho de Afrodite.

Arata riu e deu de ombros:

– Porque está de mau humor, caro líder?

Jack diminuiu o passo. Semi-cerrou os olhos sentindo a brisa da noite agitar os cabelos negros e curtos, de fios muito lisos:

– Achamos uma pista...

Arata ficou sério:

– Então era verdade? Estava aqui mesmo nessa droga de pais?

– Hn. Japão.

Jack tinha que concordar que aquela nação recebia um fluxo de energia impressionante. As barreiras entre o sobrenatural e o real eram tênues e frágeis. Muitas vezes confundiam os sentidos e ofereciam a proteção perfeita a toda sorte de misticismos.

– Uma pista do...? – Arata indagou, observando o moreno mais baixo tirar um cigarro da cartela e acender.

– Do humano.

– Do humano?! – o moreninho da mexa ruiva arregalou os olhos.

Jack sorriu tragando profundamente. Sim, pelo que descobrira estavam próximos do alvo de suas buscas. Muito próximos...

– Volte para o Abrigo, Arata. Vamos nos encontrar em duas horas no parque Ueno. Não temos tempo a perder. Se nós o encontramos, logo Zeus o encontrará também.

– Maldição... – Arata cerrou os punhos. Se Zeus ou algum dos doze grandes chegasse primeiro, tudo iria por água abaixo. – Entendi. A gente se vê, Jack.

O rapaz saiu andando apressado. Começara a lutar contra o tempo. O moreno que ficou pra trás respirou fundo. Terminou de tragar o cigarro e jogou a bituca no chão. Arata estava certo. Zeus mataria o humano caso o encontrasse antes.

E Jack jamais permitiria que aquilo acontecesse. Ele o protegeria. Protegeria a única pessoa da face da Terra capaz de abrir a caixa de Pandora e trazer um novo rumo para a humanidade.

Continua...